A SERPENTE

Com direção de Eric Lenate, A Serpente, última peça escrita por Nelson Rodrigues, estreia no Teatro Viradalata 

Em cartaz entre 2 e 20 de  novembro, com sessões extras nos dias 23 e 27 de novembro, espetáculo tem elenco formado por Carolina Lopez, Fernanda Heras, Mariá Guedes, Juan Alba e Paulo Azevedo

 Fotos de Leekyung Kim

 

Considerada uma ‘tragédia carioca’, de acordo com a célebre classificação do crítico teatral Sábato Magaldi para a obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), A Serpente foi a última e mais curta peça escrita pelo “anjo pornográfico”, alcunha criada pelo próprio dramaturgo e jornalista pernambucano. Mesmo com apenas um ato, a peça de 1978 não deixa de criar polêmica ao retratar o amor de duas irmãs pelo mesmo homem.

Elas juraram nunca se separar e moram juntas na mesma casa com seus respectivos maridos. Lígia decide se suicidar porque tem um casamento infeliz – e não consumado – com Décio, que diz sofrer de impotência, mas, na verdade, tem um caso com outra mulher.

Para evitar que a irmã fizesse isso, Guida tem a ideia de emprestar Paulo, o próprio marido, para ela por uma noite. O que Guida não esperava era que Lígia se apaixonaria por ele, muito menos que esse erro poderia resultar até em morte.

Esta é a terceira montagem de Eric Lenate para peças de Rodrigues: em 2013, ele dirigiu “Vestido de Noiva” e, em 2015, “Valsa Nº6”. O elenco conta com a participação de Carolina Lopez, Fernanda Heras, Maria Guedes, Juan Alba e Paulo Azevedo.

A SERPENTE POR ERIC LENATE
“Nelson Rodrigues tem uma capacidade impressionante de nos deixar constrangidos com nossa própria miséria e obtusidade. Sua obra deitada no papel é um espelho cruel de nossa face horrorizante. Ele é e será sempre bem-vindo em qualquer período de obscurantismo e miséria intelectual.

Se, por vezes, ele parece ser machista, cuidado. Se, por vezes, ele parece ser racista, cuidado novamente. É provável que estejamos apenas olhando para um espelho. E o que fazemos com Nelson nesses momentos, sem conseguirmos compreender que é provável que estejamos olhando para nossa própria face?”, comenta o diretor.

“Eu procuro exercitar minha sensibilidade sempre no sentido de estar muito atento às solicitações da obra com a qual me proponho a trabalhar. Reparem bem que uso a preposição ‘com’. Reparem também que preposição é a palavra que estabelece uma relação entre dois ou mais termos de uma oração. Essa relação é do tipo subordinativa, ou seja, entre os elementos ligados pela preposição não há sentido dissociado, separado, individualizado; ao contrário, o sentido da expressão é dependente da união de todos os elementos que a preposição vincula. Esse tipo de relação é considerada uma conexão, em que os conectivos cumprem a função de ligar elementos. A preposição é um desses conectivos e se presta a ligar palavras entre si em um processo de subordinação denominado regência. Diz-se regência devido ao fato de que, na relação estabelecida pelas preposições, o primeiro elemento – chamado antecedente – é o termo que rege, que impõe um regime; o segundo elemento, por sua vez – chamado consequente – é o termo regido, aquele que cumpre o regime estabelecido pelo antecedente.

Observo realizadores que não respeitam ou que ignoram esse fato em sua suposta ‘relação’ com a obra. Portanto, procuro sempre me deixar reger pela obra. Até no que diz respeito a um possível pedido dela, como em A Serpente, de: ‘não me tomem de maneira literal’.

Neste sentido, em A Serpente, Nelson faz provocações muito claras, muito caras, porém, no mínimo, ambíguas e de difícil materialização cênica. Em suas provocações, se utilizando de frases lacônicas e abismais, com personagens travando uma guerra feroz entre razão e emoção, arma ciladas e arquiteta uma situação-limite que desafiam nosso intelecto e nossa sensibilidade, nos propulsionando para a derrocada ou para a ressurreição. É preciso coragem e perspicácia para entendê-lo. Nelson nunca foi leviano. Nossa capacidade de lê-lo, por vezes, sim.

Portanto, ao conseguirmos notar em A Serpente fissuras que nos fizeram mergulhar em uma espécie de magma mítico que dá suporte instável e anima a ‘traiçoeira superfície rodrigueana’, nos orientamos no sentido de conseguir produzir uma materialidade cênica que desse conta de uma situação aparentemente banal e cotidiana, mas que carrega em si a evocação obsedante de um comportamento humano moribundo, que já deveria ser defunto, mas que insistimos em perpetuar.

As personagens, em nossa encenação, transitam ‘livremente’ por um dispositivo cenográfico que as encarcera física e mentalmente. O apartamento no décimo segundo andar, solicitado por Nelson, que abriga dois casais – duas irmãs com seus maridos – se resume a uma única cama. Uma moça misteriosa trabalha no apartamento dessa família.

Esta obra de Nelson nos conduziu pela senda da compreensão de um ‘corpo humano’ normatizado como aberração. Nos conduziu também pela senda da compreensão desse mesmo ‘corpo humano’ agora aberrando a norma. Convulsionando por que não suporta mais carregar uma herança ancestral de comportamentos nojentos e que estremece ao arrotar um vocabulário impraticável nos dias atuais. Nossa encenação é uma pretensa atualização do gênio de Nelson. Um tentativa de prova de todas as faces de sua moeda artística. E uma tentativa de uma espécie de ritual simbólico de expurgo.

Como ‘a serpente no jardim’, Nelson nos encara de frente com seu olhar provocador. Seria ele a tal da serpente do título de sua peça? O ser ardiloso que por alguns é visto como símbolo do mal e por outros visto como símbolo de esperança, renascimento e renovação? Essa dúvida nos abriu os olhos para a compreensão de novas possibilidades e o trato com nossa encenação foi regido pela ‘Serpente-Nelson’ e pela seguinte pergunta capital:

Até quando vamos continuar arruinando nossa humanidade?”

NELSON RODRIGUES
Considerado um dos maiores e mais influentes dramaturgos brasileiros, o recifense Nelson Rodrigues (1912-1980), que se autointitulava um “Anjo Pornográfico”, escreveu 17 textos teatrais, classificados pelo saudoso crítico Sábato Magaldi em “Peças Psicológicas”, “Peças Míticas” e “Tragédias Cariocas”. Ele também é autor de nove romances e centenas de crônicas publicadas em sua famosa coluna “A Vida Como ela É” no jornal Última Hora.

Além de dramaturgo, Rodrigues trabalhou como jornalista policial e cronista de futebol. Algumas de suas peças, sobretudo “Vestido de Noiva”, que se passa em três planos temporais diferentes, foram responsáveis pela modernização do teatro brasileiro nos anos de 1940. O autor retirava o material para suas polêmicas e vanguardistas obras da vida no subúrbio do Rio de Janeiro.

ERIC LENATE
O ator e diretor Eric Lenate estudou durante quatro anos no CPT – Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, coordenado por Antunes Filho. Atuou em várias montagens desse grupo e estreou como diretor no espetáculo “O Céu 5 minutos antes da tempestade”, de Silvia Gomez. Entre 2013 e 2014, foi formador convidado no curso de Direção e artista-orientador de experimentos na SP Escola de Teatro.

Em 2012, ele foi indicado ao prêmio Shell na categoria especial pela “força performativa de seus experimentos” e, em 2014, foi novamente indicado nessa premiação pela direção de “Sit Down Drama”, de Michelle Ferreira.

Em 2015 funda a Sociedade Líquida, projeto-provocação responsável pelos trabalhos: Ludwig e suas irmãs, de Thomas Bernhard; Mantenha fora do alcance do bebê, de Silvia Gomez; Fim de Partida, de Samuel Beckett, pelo qual foi indicado ao prêmio APCA de melhor ator em 2016; O teste de Turing, de Paulo Santoro, e Refluxo, de Angela Ribeiro, que esteve em cartaz no primeiro semestre de 2017 no Mezanino do Centro Cultural FIESP e pelo qual Lenate está indicado aos prêmios Shell de melhor direção e melhor cenário, em São Paulo. Love, Love, Love, de Mike Bartlett, estreado em janeiro de 2017 no Rio de Janeiro, ainda inédito em São Paulo, em parceria com o Grupo 3 de Teatro, é um de seus mais recentes trabalhos. Por este trabalho, Lenate está também indicado ao prêmio Shell de melhor direção, no Rio de Janeiro.

SINOPSE
Duas irmãs que juraram nunca se separar vivem no mesmo apartamento com seus respectivos maridos. O casal Guida e Paulo vive uma aparente interminável lua de mel, enquanto Lígia e Décio não chegaram sequer a consumar o casamento. Lígia decide se suicidar movida pela infelicidade em seu relacionamento amoroso, mas Guida, na tentativa de impedir a morte da irmã, oferece o próprio marido por uma noite. A desconcertante oferta moverá toda essa trama de amor e morte.

FICHA TÉCNICA
Texto | Nelson Rodrigues

Elenco
Carolina Lopez
Fernanda Heras
Mariá Guedes
Juan Alba
Paulo Azevedo

Direção | Eric Lenate
Diretora assistente | Erica Montanheiro
Iluminação | Aline Santini
Figurinos e visagismo | Rosângela Ribeiro
Trilha sonora original, sonoplastia e engenharia de som | L. P. Daniel
Arquitetura cênica | Eric Lenate
Fotografia artística | Leekyung Kim
Design gráfico | Alexandre Muner
Assistentes de figurino | Aline Olegário e Natália Hirata
Costureira | Vera Luz
Assistente de iluminação e operação técnica | Nicolas Manfredini
Assistente de sonoplastia e operação técnica | Rodrigo Florentino
Suporte técnico (Tango) | Ronaldo Gutierrez
Diretor de Palco | Augusto Vieira
Montador Cenotécnico | Tom Silva
Direção de produção | Maristela Bueno
Coordenação administrativa | Daniel Torrieri Baldi
Produção Executiva | Priscilla Lima
Assessoria de imprensa | Pombo Correio
Assessoria contábil | Eduardo Belvedere

Agradecimentos – Alexandra Golik, André Oliveira, Angela Lopes Cesar, Berenice Lamônica, Cristina Dell’Amore, Edmar Padula, InBox Cultural, Isabela Tortato, Julio Cezar Alves de Oliveira, Kauê Telloli, Lenon Bastos de Carvalho, Lucas Madaleno, Luiz Carlos Maluly, Manu Alcântara, Marcelo Santiago, Maria Ines dos Santos Heras, Meg Pereira, Nelson Felicio Heras, Priscila Guimarães, Valdir Pereira, Vanda Varella, Walter Cesar.

SERVIÇO

De 2 a 20 de novembro de 2017, com sessões extras dias 23 e 27 de novembro.
DURAÇÃO: 60 minutos
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 16 anos
PREÇO DO INGRESSO: R$ 60,00 (inteira) R$ 30,00 (meia entrada)
TEATRO: Teatro Viradalata, Sala Nobre, localizada na Rua Apinajés, nº 1.387 – Sumaré – São Paulo, Capital.

BILHETERIA DO TEATRO: Bilheteria aberta 2 horas antes até 1 hora depois do horário de início do espetáculo. A bilheteria do Teatro só abre em dias de espetáculo. Aceita cartões de débito e crédito – Mastercard, Redecard, Visa e Visa Electron. Não aceita cheques.

TELEFONE: 3868-2535
PELA INTERNET: Ingresso Rápido: www.ingressorapido.com.br

CAPACIDADE: Sala Nobre: 270 lugares
ESTACIONAMENTO: Serviço de Vallet no local (R$ 22,00).

TEMPORADA: Apresentações quintas 19h, sextas e sábados 21h30, domingos 19h e segundas 21h.