Teatro de Contêiner Mungunzá ocupa a Funarte

Lacrado pela Prefeitura e pelo Governo do Estado há dois meses, Teatro de Contêiner Mungunzá transfere sua programação para Funarte

Em abril e maio, o Complexo Cultural Funarte acolhe apresentações gratuitas de Luis Antonio-Gabriela, Elã e anonimATO, espetáculos da Cia. Mungunzá que estavam previstos para acontecer no Teatro de Contêiner

Crédito: Léo Akio

Depois de ter sido despejada de seu Teatro de Contêiner em janeiro de 2026, a Cia. Mungunzá trabalha para reconstruir o espaço cultural em um terreno cedido pela Prefeitura de São Paulo. Durante esse processo, o Complexo Cultural Funarte acolhe ações que já estavam contratadas para acontecer. Dentro da programação estão apresentações gratuitas do próprio grupo – Luis Antonio-Gabriela, Elã e anonimATO ficam em cartaz por lá de 3 de abril a 24 de maio.

Em retrospectiva a esse difícil processo de mudança, Léo Akio e Marcos Felipe, artistas do grupo, comentam: “2025 foi um ano caótico. De um lado, enfrentamos pressão e violência para a saída do Teatro de Contêiner; de outro, celebramos a criação e a estreia de um novo espetáculo. Encerramos o ano esgotados, mas íntegros: nosso novo trabalho foi um sucesso e fizemos de tudo para que a mudança do Teatro de Contêiner acontecesse de forma digna e justa, respeitando nossos compromisso, nossa história e reafirmando um projeto de cidade mais humana e inclusiva”. 

Ainda sobre a nova sede, Léo acrescenta: “Estamos buscando diálogo e uma posição formal da Prefeitura sobre o terreno ofertado na Rua Helvetia 807, mas ainda sem sucesso”. Marcos completa: “Não temos a opção de parar. Até que a transferência do Teatro de Contêiner seja concluída, vamos transferir a programação contratada para outros espaços”. 

Funarte acolhe programação do Teatro de Contêiner – Ocupação Mungunzá

A programação da Cia. Mungunzá tem início com o espetáculo anonimATO, com direção de Rogério Tarifa, direção musical de Zimbher e dramaturgia de Verônica Gentilin, que tem apresentações nos dias 3, 4 e 5 de abril, às 16h (no dia 3, também tem sessão às 11h). Em uma espécie de ode ao teatro, o espetáculo é um diálogo com a cidade e seus habitantes que traz à cena atores, músicos, bonecos e poesia. 

Na trama, oito figuras anônimas de uma cidade grande – a mãe, a mulher-árvore, a vendedora de sonhos, o homem-placa, o pipoqueiro, o trabalhador, o homem que é “todo mundo” e a mulher que é “ninguém” – são convocados de várias maneiras para um ato e se encontram nessa caminhada. Eles representam a multidão presente no ato e vão se transformando durante a caminhada. 

Já o sucesso Luis Antonio-Gabriela, que já foi visto por milhares de pessoas em todo o Brasil e ganhou diversos prêmios (Shell, APCA, CPT e APLGBT), tem novas sessões de 10 a 26 de abril, às sextas às 19h30, e aos sábado e domingos, às 16h (com sessão extra na quinta-feira, dia 23/04, às 19h30h). A peça é um documentário cênico da travesti Gabriela, irmã do diretor Nelson Baskerville, que aos 30 anos, decide enfrentar toda a opressão familiar e mudar-se para a Espanha para viver sua nova identidade de gênero, tornando-se, em pouco tempo, uma figura conhecida na noite europeia. 

A dramaturgia é construída por meio de um levantamento biográfico composto por fotografias, diários, cartas e entrevistas com familiares e amigos. A trama percorre desde o nascimento da protagonista (Luis Antonio, filho mais velho de cinco irmãos, em 1953), até a sua morte em 2006, como Gabriela, na cidade espanhola de Bilbao. O espetáculo atravessa a descoberta de sua homossexualidade aos oito anos e sua incessante busca pela construção de uma identidade de gênero, em plena ditadura militar brasileira.

Por fim, o mais recente trabalho do grupo, Elã, com direção de Isabel Teixeira, tem novas apresentações de 8 a 24 de maio, às sextas às 19h30, e aos sábados e domingos às 16h (com sessão extra na quinta-feira, dia 21/05, às 19h30h). A partir do “Livro de Linhas”, o espetáculo é uma trama permeada por oito histórias criadas por atores-escritores que se passam em diferentes tempos e espaços. Todas as histórias se cruzam de maneira sobreposta e cabe ao público escolher seu ângulo e montar a sua teia narrativa.

Entre essas histórias, estão: Um andarilho, dentro de um jogo de videogame, através dos diferentes tempos da linha da sua vida, tenta se livrar de uma herança ancestral deixada pelo seu pai // Um ator – vendedor de morangos – que tenta convencer uma renomada diretora a dirigir seu próximo espetáculo, incluindo sua mãe no elenco // A mãe que entra no espetáculo dirigido pelo filho e, cena após cena, vai se libertando do papel que lhe foi imposto // Uma mulher, após construir uma família de alta performance, decide matar a  família para realizar seu sonho de ser cantora de boate, honrando sua avó, vítima da Guerra Civil Espanhola // Uma mãe, enquanto enfrenta o luto e cria os filhos, reacende a sexualidade reprimida em suas ancestrais, através de uma retomada do poder feminino // Um homem descobre, na morte, o maior empreendimento capitalista de todos os tempos: a empresa “Animador de Velórios” // Uma mulher, convencida de ser uma aranha tecendo o destino do mundo, tenta impedir uma explosão, voltando no tempo e manipulando cada passo dos envolvidos // Um homem-bomba, ao se explodir, deixa pistas para sua filha, guiando-a por um outro olhar sobre o mundo.

Sobre a Cia Mungunzá

A Cia. Mungunzá é uma das companhias mais inovadoras do cenário teatral brasileiro. Criada em 2008, o grupo desenvolve uma pesquisa cênica continuada, alinhando arte, cultura e vida, construindo uma narrativa e uma linguagem autoral, com montagens de peças com grande poder de comunicação com o público.

A Mungunzá firmou-se como grupo que trabalha com diretoras e diretores convidados, fator que ajuda a manter os processos cênicos vívidos. Na sua pesquisa busca a polifonia e o hibridismo das linguagens artísticas, propondo a encenação como dramaturgia e o ato performático como atuação. Fomenta o fazer artístico como prática política e social.

O grupo expande suas fronteiras ao criar, em 2017, o Teatro de Contêiner Mungunzá, uma ocupação artística que se tornou sede da companhia e um dos espaços culturais independentes mais importantes do país. Reconhecido por sua programação e por uma gestão cultural de forte impacto em contextos de extrema vulnerabilidade social, o espaço também se destaca por sua arquitetura sustentável, transformadora e comunitária. Em 2025, o teatro sofreu um despejo e, atualmente, sua reconstrução segue em meio a um processo de disputa política.

Funarte acolhe programação do Teatro de Contêiner – Ocupação Mungunzá
Quando: de 3 de abril a 24 de maio
Ingressos: grátis, devem ser reservados em https://www.sympla.com.br/produtor/teatrodeconteiner

Programação:
anonimATO
Imagine que você e cada um dos quase 8 bilhões de habitantes do planeta receberam, hoje, um motivo muito bom pra ir para o mesmo local. Lá, há uma mulher que enterra suas raízes no solo e vira árvore; uma mulher que se desprende do chão e sobe aos céus; um pipoqueiro; uma vendedora de sonhos; um homem que tenta se equilibrar em cima da Utopia; alguém que trabalha; alguém que é tudo isso junto; e alguém que se esconde.
Quando: 3, 4 e 5 de abril, às 16 h. No dia 3, também há sessão às 11h
Duração: 90 minutos
Classificação: Livre

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Luis Antonio-Gabriela
Por meio de levantamentos biográficos compostos por fotografias, diários, cartas, entrevistas com familiares e amigos, a Cia. Mungunzá de Teatro apresenta ao público a transformação de Luis Antonio em Gabriela. Baseada na história real de Nelson Baskerville, diretor do espetáculo, a dramaturgia é construída a partir de diferentes pontos de vista, como do irmão caçula que foi abusado sexualmente; da irmã que sai pelo mundo em busca do corpo de Gabriela; da madrasta que o criou com mais 8 crianças; do pai que, em vida, não reconheceu a filha travesti e dos amigos e colegas de trabalho, que viam a figura da protagonista com uma mistura de admiração e estranhamento.

Quando: 10 a 26 de abril , na sexta às 19h30, sábado e domingo às 16h. Sessão extra acontece na quinta-feira, dia 23/04 às 19h30h
Duração: 100 minutos
Classificação: 16 anos

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Elã
Em uma espiral do tempo, oito histórias se cruzam em camadas sobrepostas. Cabe ao público escolher seu ângulo, e montar a teia da narrativa. Um andarilho, dentro de um jogo de videogame através dos diferentes tempos da linha da sua vida, tenta se livrar de uma herança ancestral deixada pelo seu pai // Um ator e vendedor de morangos tenta convencer uma renomada diretora a dirigir seu próximo espetáculo, incluindo sua mãe no elenco // A mãe entra no espetáculo dirigido pelo filho e, cena após cena, vai se libertando do papel que lhe foi imposto // Uma mulher, após construir uma família de alta performance, decide matar a  família, para realizar seu sonho de ser cantora de boate, honrando sua avó, vítima da Guerra Civil Espanhola // Uma mãe, enquanto enfrenta o luto e cria os filhos, reacende a sexualidade reprimida em suas ancestrais, através de uma retomada do poder feminino // Um homem descobre, na morte, o maior empreendimento capitalista de todos os tempos: a empresa “Animador de Velórios” // Uma mulher, convencida de ser uma aranha tecendo o destino do mundo, tenta impedir uma explosão, voltando no tempo e manipulando cada passo dos envolvidos // Um homem-bomba, ao se explodir, deixa pistas para sua filha, guiando-a por um outro olhar sobre o mundo.

Quando: 8 a 24 de maio, na sexta às 19h30, e aos domingos, às 16h. Sessão extra acontece na quinta-feira, dia 21/05 às 19h30h
Duração: 120 minutos
Classificação: 16 anos