SPACE INVADERS

Com músicas de David Bowie e linguagem das HQs, peça juvenil Space Invaders estreia no Espaço Elevador, em 4 de novembro

 Dirigido e escrito por Fernanda Gama, o espetáculo da Cia. do Fubá revela o olhar de um adolescente que se sente tão isolado quanto um astronauta fora de órbita. Bruno Gavranic, Leonardo Devitto, Mateus Monteiro e Paula Bega formam o elenco

Fotos de Leekyung Kim

 

A adolescência é um período turbulento para quase todo mundo. Os sentimentos de solidão e inadequação são muito mais comuns do que pensa o inseguro Caio (Bruno Gavranic), um jovem deprimido de 14 anos que teve seu espaço invadido quando os três filhos adolescentes de seu padrasto se mudaram para a sua casa. Para aliviar o sofrimento, ele decide transformar a experiência na HQ Space Invaders, que, não por acaso, dá nome ao espetáculo jovem de Fernanda Gama, da Cia. do Fubá. Isso porque a própria peça reproduz a graphic novel, ou romance em quadrinhos, escrita pelo protagonista – tudo o que vemos é sob o ponto de vista dele.

Como os alienígenas do jogo “Space Invaders”, que tentam invadir a tela do Atari (o videogame popular nos anos de 1980) e precisam ser combatidos por uma espaçonave, os irmãos Pedro (Mateus Monteiro) de 17 anos, Luca (Leonardo Devitto) de 11 anos e Vanessa (Paula Bega) de 14 anos ocupam o antigo quarto de Caio. Os três se mudaram para o apartamento do pai porque sua mãe está com uma depressão profunda e já não tem mais forças para cuidar dos filhos. Eles também sofrem com a saudade dos amigos, da antiga escola e de casa.

Fã de David Bowie, Caio retrata a si mesmo em sua HQ como o astronauta Major Tom, da música “Space Oddity” (1969), um homem que abandona a vida na Terra e acaba sozinho na imensidão do espaço. Caio evita ao máximo o encontro com os meios-irmãos e, no fundo, sofre com a indiferença deles. “Acho que a alternativa que ele encontra para o sofrimento, no fim das contas, é justamente esse prazer em escrever histórias, essa saída pelo caminho da arte e da autoexpressão”, comenta Gama.

À medida em que Caio passa a conviver mais com os meios-irmãos, descobre que eles não são esses monstros que ele retratou. “Ele percebe que ele não é o único que sofre ali. Os três também são humanos e têm problemas. E o que o alivia é que eles têm uns aos outros. Eles têm que se ajudar, ficarem vivos uns pelos outros”, esclarece a diretora.

O espetáculo surgiu de um desejo da Cia. do Fubá de desenvolver seu primeiro trabalho direcionado para o público jovem. O texto foi desenvolvido através do PROAC – Criação de Dramaturgia, em 2016, e contou com uma série de oficinas que tinham a proposta de transformar experiências e sentimentos dos adolescentes participantes em textos teatrais e depoimentos, materiais que também serviram como referências para a encenação. Em 2017, o grupo foi contemplado pelo PROAC – Montagens infanto-juvenis inéditas para a produção do espetáculo.

Ao fim, o projeto pretende trazer uma reflexão sobre como as pessoas aprendem a lidar com a crueldade do mundo. “Tem um pessimismo, que também aparece no material produzido pelos jovens nas oficinas. Quando passamos da infância para a adolescência, tomamos consciência sobre a maldade, o sofrimento, como as pessoas são terríveis, como a vida pode te passar para trás. É assustador. Na vida adulta, entendemos que os nossos problemas não são maiores do que os de ninguém, e não são eternos. É como um videogame, em que as coisas vão ficando mais difíceis a cada fase. Você quer avançar, mas tem saudades de quando as coisas eram mais simples. Ao mesmo tempo, essa é a graça do jogo. Não dá para voltar atrás”, comenta Gama.

ENCENAÇÃO
Entre as inspirações da peça estão as graphic novels: “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”, de Chris Ware, “Cicatrizes”, de  David Small, “Retalhos”, de Craig Thompson, e “Fun Home”, de Alison Bechdel, que serviram como referências temáticas.

As canções e a figura de David Bowie são referências muito fortes para o espetáculo. “Caio é fã de David Bowie, se identifica com a solidão e a sensação de inadequação que ele tanto colocou em suas letras, e admira o fato de ele sempre ter se recusado a seguir qualquer padrão. Se Bowie podia ser tão diferente do resto do mundo, então talvez ele também possa. E o Bowie acaba sendo uma referência muito importante também para o Luca, que tem 11 anos e está começando a entender mais sobre seus gostos, seu corpo, sua sexualidade. A figura andrógena de Bowie o ajuda a entender um pouco mais sobre si mesmo”, explica a diretora.

A própria linguagem dos quadrinhos tem grande influência na cenografia, assinada por Victor Merseguel. Cada cômodo do apartamento é retratado como um quadro de uma página de HQ. “Tentamos trabalhar uma limpeza de ações pra que, nesses quadros, o desenho do corpo no espaço já diga o que aquela personagem está sentindo e qual é a situação. O cenário ainda se relaciona com o que entendemos sobre o desejo de isolamento, cada um preso no seu próprio mundo, no seu quadrado”, diz.

Já os figurinos, assinados por Antonio Vanfill, fogem do realismo ao retratar como Caio enxerga a si mesmo e aos outros personagens. Por exemplo, ele veste uma roupa de astronauta porque se sente isolado do planeta. Vanessa veste o tempo todo o vestido de debutante que gostaria de usar em sua festa de 15 anos.

“Ao longo do espetáculo, conforme Caio muda a maneira como enxerga os irmãos, os figurinos se transformam e ficam mais realistas. Os personagens vão tirando todos os adereços, como se fossem máscaras. Agora que se conhecem melhor, podem mostrar que são pessoas”, acrescenta Gama.

FERNANDA GAMA
Formada em Artes Cênicas pela ECA-USP em 2006, a atriz, dramaturga e diretora Fernanda Gama também integrou o Núcleo Experimental de Atores do SESI-SP, entre 2010 e 2011, e o LAPCA – Laboratório do Ator da Unesp, em 2015. Diretora e dramaturga da Cia do Fubá nas peças Que Aconteceu com Vô Quim?, A Menina Lia (vencedora do Prêmio Cooperativa de Teatro 2012 como Melhor Trabalho Infanto-juvenil), Poetinha Camará, e Space Invaders, projeto contemplado pelo PROAC Estímulo a Dramaturgia, em 2015.

Foi também diretora do Grupo Cultura Inglesa no Projeto Conexões de Teatro Jovem, do National Theatre de Londres, com DNA, de Dennis Kelly, 2015, e Os Músicos, de Patrick Marber, 2016, e desde 2008, atua como arte-educadora coordenando grupos de teatro para crianças e adolescentes na cidade de São Paulo.

Como atriz, trabalhou em “É Proibido Miar”, dirigida por Marcelo Klabin; “EstudoHamlet.Com”, por Cacá Carvalho; “Honey”, por Fernanda D’Umbra; “Lótus”, por Rafael Truffaut, pela qual ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival Curta Teatro Sorocaba 2005; “Mahagonny Patchwork”, por Beth Lopes; entre outros.

Além disso, trabalhou como preparadora corporal da Cia. dos Imaginários, dirigida por René Piazentin, com quem atualmente ensaia o espetáculo “Por que o Papel Queima?”, que tem previsão de estreia em 2018.

CIA. DO FUBÁ
Criada em 2010, a Cia. do Fubá é especializada em teatro para crianças e jovens. Os trabalhos que marcaram a trajetória do grupo são “Que Aconteceu com Vô Quim?” (2011), sua peça de estreia; “A Menina Lia” (2012), vencedor do Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro como melhor espetáculo infantil; e “Poetinha Camará” (2015), que circulou por várias unidades do SESC e pela Virada Cultural Paulista 2016.

Em 2017, a trupe fez uma temporada de circulação de repertório por meio do Prêmio Zé Renato de Teatro e produziu seu novo trabalho, “Space Invaders”, com apoio do PROAC Produções Inéditas.

SINOPSE
Caio é um adolescente inseguro e deprimido de 14 anos, que só pensa em sumir do mapa e se sente isolado como um astronauta fora da órbita da Terra. Ele perde espaço na própria casa depois que os filhos de seu padrasto – Pedro, Luca e Vanessa, se mudam para sua casa, e, como alienígenas do jogo “Space Invaders”, invadem seu antigo quarto. A peça é uma história em quadrinhos que Caio começou a escrever depois dessa mudança brusca em sua vida.

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e Direção: Fernanda Gama
Elenco:  Bruno Gavranic, Leonardo Devitto, Mateus Monteiro e Paula Bega
Cenário: Victor Merseguel
Figurinos: Antonio Vanfill
Adereços: Antonio Vanfill e Victor Merseguel
Iluminação (ensaios abertos):  Luciano Ferreira Alves
Iluminação (temporada): Jimmy Wong
Trilha Sonora: Fernanda Gama
Designer Gráfico: Luca Bacchiocchi
Fotos: Leekyung Kim
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Mídias Digitais: Elemento Cultural
Produção: Núcleo Corpo Rastreado
Realização: Cia. do Fubá

SERVIÇO
“Space Invaders”, da Cia. do Fubá
Espaço Elevador – Rua Treze de Maio, 222 – Bela Vista
Telefone: 011-34777732
Temporada: de 4 de novembro a 10 de dezembro
aos sábados e domingos, às 19h
Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia-entrada) (a bilheteria abre 1 hora antes da apresentação)
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos
Lotação: 41 lugares